Olhar o problema de frente

Como tradicionalmente acontece em todo 1.º de dezembro, quando se celebra o Dia Mundial de Luta Contra a Aids, o Ministério da Saúde divulgou o novo boletim epidemiológico da doença e sua campanha anual de prevenção. Em 2011 foi levantado um problema bem específico: os adolescentes e jovens adultos gays.

Muita coisa mudou desde o começo da epidemia. O tratamento evoluiu muito, e hoje é possível uma pessoa com Aids viver por muito mais tempo e com bastante qualidade de vida. Aqueles quadros sombrios que se viam nos anos 1980 - quando receber um teste positivo de HIV era praticamente receber uma sentença de morte - já não condizem com a realidade. O problema é que o medo de se contaminar foi diminuindo junto com a evolução da epidemia - e, com isso, a prevenção acabou ficando de lado.

Se, por um lado, os adolescentes usam mais camisinha do que as faixas etárias mais velhas, por outro, paradoxalmente, eles se contaminam mais. Encaram a camisinha de uma forma mais natural, mas isso não significa que eles se conscientizem de que precisam usá-la sempre, mesmo quando estão apaixonados ou quando querem estabilizar um namoro. Só que, como as coisas acontecem numa velocidade muito maior na juventude, a paixão eterna de hoje é substituída em poucos meses. Mesmo que o jovem só se relacione com uma pessoa naquele período, acaba engatando uma “monogamia em série”. É nesse contexto que o HIV está se alastrando entre garotas e jovens gays, principalmente.

Em comum, podemos pensar que esses dois grupos ganharam mais liberdade para discutir e vivenciar sua sexualidade. Só que, talvez, junto com a liberdade não tenha vindo a noção de responsabilidade. Meninas não precisam mais esperar até o casamento para iniciar a vida sexual (minoria é quem espera!). Já os rapazes gays agora contam com redes sociais virtuais, manifestações e grupos públicos em que podem encontrar apoio e facilitadores para conhecerem outros rapazes gays. A repressão à orientação sexual está, aos poucos, diminuindo. O resultado é muito semelhante ao que se via entre garotas e jovens adultas no começo dos anos 2000.

No começo da década, as meninas entre 15 e 24 anos eram o único grupo em que, proporcionalmente, havia mais mulheres infectadas do que homens. O Ministério da Saúde concentrou seus esforços para aumentar a prevenção entre esse grupo - e parece que o resultado foi positivo. Agora a proporção voltou a ser maior entre os garotos - provavelmente não só porque elas estão se protegendo mais, mas porque eles estão se protegendo menos.

Em 2011, a campanha de prevenção se centrou nos adolescentes e jovens homossexuais, que respondem por cerca de 35% dos novos casos de Aids no grupo de 15 a 24 anos. Além disso, representam a única faixa em que a epidemia continua crescendo, em vez de estagnar ou começar a diminuir. Não dá para fingir que o problema não existe. Ele tem de ser encarado de frente não só pelo governo, por educadores ou por profissionais da saúde. Os pais precisam fazer sua parte e abrir o diálogo para conscientização. E torcer para que a diminuição no índice de infectados observada entre as meninas também se estenda entre os jovens homossexuais.

Jairo Bouer

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Jairo Bouer

Jairo Bouer

Médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – USP –, com residência em Psiquiatria pelo Instituto de Psiquiatria da mesma universidade.
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