Aluga-se um amigo
Navegando pela Internet, deparei-me com algo curioso e interessante: pessoas oferecendo-se para ser amigas de aluguel – ou personal friends, como muitas preferem ser chamadas. A ideia é a seguinte: pagando uma sessão de amizade (que dura em média 1 hora), é possível curtir uma boa conversa em um café; uma ida ao shopping, ao parque, uma companhia para festa ou qualquer outra atividade que amigos costumam fazer juntos. Detalhe: tudo isso sem intimidade! Essa é a regra.
Está certo que vivemos na era do “personal tudo” – personal stylist; personal organizer; personal trainer; personal diet; personal shopper, etc. – como se não tivéssemos mais habilidade de escolher nossas roupas; de fazer compras, de arrumar a bagunça da casa ou de preparar uma alimentação adequada. Mas será que perdemos até a capacidade de fazer amigos?
A ideia do personal surgiu provavelmente nos Estados Unidos, em decorrência de fatores como a falta de tempo, a rotina de horas de trabalho e, também, a tendência ao individualismo, características hoje sentidas e vividas em qualquer lugar do mundo. Pensando assim, por que não existir um personal friend? Se nós estamos cada vez mais dentro de casa e com o tempo cada vez mais curto, nada mais óbvio do que contratar uma amizade. Mas amizade é isso mesmo? É aí que mora o problema.
A amizade requer conhecimento mútuo, tempo e intimidade! Conhecimento mútuo para descobrir gostos e ideias em comum; tempo para aprofundar o vínculo de confiança e até mesmo para brigar e fazer as pazes. Amizade é o oposto de uma relação comercial, pois não é um serviço prestado, e sim uma relação baseada no simples desejo de compartilhar e estar junto.
Fico pensando também nas amizades que travamos nas redes sociais. Reflita sobre a pergunta “Quer me adicionar como amigo?”. Quantas vezes você a ouviu na escola, na rua ou no prédio onde mora? Poucas ou nenhuma vez. Mas quantas vezes você recebeu essa mensagem na sua rede social? Provavelmente muitas. Esses ambientes virtuais são divertidos e chegaram para ficar, mas será que sabemos a diferença entre as relações que estabelecemos no mundo virtual e as amizades e paixões que travamos no mundo real? Tem diferença? São melhores ou piores? Ufa! Quantas perguntas…
Bem, questionar é importante. Faz pensarmos, criticarmos, ponderarmos e descobrirmos se algo é bom, ruim, se vale ou não a pena. Em relação às amizades, talvez estejamos caminhando para mantermos diferentes tipos de relação. Afinal, amigos mesmo, aqueles à moda antiga, costumam ser poucos. E dão trabalho! Temos que lhes dar atenção, respeitá-los, dar bronca neles, mimá-los, oferecer um colo e até brigar com eles de vez em quando. No mundo on-line e numa sessão de amizade, nada disso acontece. E parece tão mais fácil, não é? Nem precisamos mostrar nossos defeitos para sermos aceitos.
E tudo isso só para chegar a uma pergunta importante: será que estamos dando o devido valor às nossas amizades? Temos cada vez mais amigos virtuais, “seguimos” cada vez mais pessoas em suas rotinas e parecemos cada vez mais solitários. O que será que acontece? Antes de a solidão crescer a ponto de restar apenas o personal friend para acolher-nos, talvez pudéssemos voltar um pouquinho aos velhos tempos do falar horas no telefone com o melhor amigo, estudar junto em casa ou simplesmente ir com a turma ao cinema, em vez de compartilhar nas redes a experiência solitária de ter baixado o último lançamento na telinha do computador…


