A banda de rock U2 e a luta contra a ditadura em Mianmar
A música Walk On é dedicada a Aung Sang Suu Kyi, símbolo da luta pela paz, direitos humanos e democracia em Mianmar.
Lutar pela liberdade de um país não é uma tarefa fácil, ainda mais quando quem luta, no caminho, pode acabar perdendo a sua própria liberdade.
É isso que ocorreu com Aung Sang Suu Kyi, uma mulher de Mianmar (antiga Birmânia; em inglês, Burma) que decidiu erguer a bandeira pela democracia em seu país. Por sua luta, acabou vivendo anos de prisão domiciliar e tornou-se um ícone da democracia e da busca de liberdade para seu povo. Por sua história, foi homenageada em uma famosa música da banda irlandesa U2: Walk On, que veio a ser um hit do álbum All That You Can’t Leave Behind, lançado em 2000. Acompanhe o vídeo gravado em um show da banda em 2011, que traz, inclusive, uma mensagem de Suu Kyi.
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Uma história de luta
Aung Sang Suu Kyi tem um DNA de luta. Seu pai foi o general Aung San (1915-1947), herói da independência de Mianmar, porém assassinado seis meses depois de ter conseguido libertar seu país. Sua mãe foi embaixadora da Birmânia na Índia.
Sua educação foi primorosa. Em Oxford, uma das mais famosas universidades do Reino Unido, estudou Filosofia, Política e Economia. Regressou à capital de seu país, Rangoon (hoje Yangon), em 1988, para cuidar de sua mãe, que estava enferma. Na época, milhares de estudantes, trabalhadores e monges foram às ruas por reformas democráticas. Nesse período, ela organizou reuniões e viagens ao redor do país conclamando o povo para a busca da paz, de reformas democráticas e de eleições livres.
O exército, que, na época, reprimiu violentamente essas manifestações, em setembro de 1988 acabou tomando o poder. O país passou a ser governado por uma junta militar. Calcula-se que cerca de 3 mil pessoas foram mortas e centenas, presas sem julgamento. Aung auxiliaria na formação de um novo partido: NLD (Liga Nacional pela Democracia). Em 1989, por sua ativa participação nos movimentos, Suu Kyi foi detida. A junta militar concordou em libertá-la, com a condição de que ela deixasse o país. Ela recusou a proposta. Só deixaria Mianmar quando o país voltasse a ser governado por civis e tivesse seus presos políticos libertos.
Em 1990, os militares permitiram que fossem realizadas eleições no país. Apesar de Suu Kyi não poder se candidatar à NLD, seu partido venceu a maioria dos cargos. Mesmo com a vitória, a democracia não se concretizou, e a junta militar não permitiu que os vencedores ocupassem seus cargos, seguindo no governo.
Por sua luta (mesmo em cárcere) pela democracia em Mianmar, ela se tornou um verdadeiro símbolo internacional de resistência pacífica. Em 1991, foi laureada com o Prêmio Nobel da Paz, entre outras premiações.

O retrato de Aung San Suu Kyi, por um artista de rua. Foto: Eden, Janice and Jim. Licenciado por CC BY 2.0.
Enquanto esteve presa - foram ao todo 15 anos de prisão domiciliar, com algumas interrupções -, Aung ficou afastada dos filhos, não os tendo visto crescer. Não chegou a conhecer os netos e não pôde acompanhar a doença de seu esposo, que acabou padecendo de câncer longe dela.
São pedaços dessa história que podem ser observados na música Walk On. Veja parte dela traduzida.
(…)
(Refrão)
Continue em frente, continue em frente
O que você conquistou eles não lhe podem negar
Não podem vendê-la, nem podem comprá-la
Continue em frente, continue em frente
Mantenha-se segura esta noite
E eu sei que dói
Como o seu coração se partiu
Você pode aguentar mais um pouco
Continue em frente, continue em frente
(…)
A sonhada liberdade
No fim de 2010, ocorreram eleições “livres” em Mianmar, porém grupos que lutam pela democracia no país, inclusive Aung, apontaram farsas nas eleições, já que, a população foi coagida em alguns casos a votar em ex-militares. Também foi nesse ano que Aung foi liberta de mais uma temporada de cárcere.
Em janeiro de 2012, Mianmar deu um passo que agradou as organizações democráticas: libertou mais de 600 presos políticos, ação pela qual Aung tanto lutou e que era demanda de diversos países e órgãos internacionais e que com a voz do U2 se propagou para milhares de fãs ao redor do mundo.
Muitas mudanças ainda precisam acontecer em Mianmar, que é um dos países com altíssimos índices de corrupção e pobreza. Independentemente disso, a história de Aung mostra-nos que uma pessoa bem intencionada pode impactar não só o seu país, mas todo o mundo, mesmo que, para isso, tenha que pagar um alto preço.
Por Priscila Pugsley Grahl de Miranda.
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