A banda de rock U2 e a luta contra a ditadura em Mianmar

A música Walk On é dedicada a Aung Sang Suu Kyi, símbolo da luta pela paz, direitos humanos e democracia em Mianmar.

Lutar pela liberdade de um país não é uma tarefa fácil, ainda mais quando quem luta, no caminho, pode acabar perdendo a sua própria liberdade.

É isso que ocorreu com Aung Sang Suu Kyi, uma mulher de Mianmar (antiga Birmânia; em inglês, Burma) que decidiu erguer a bandeira pela democracia em seu país. Por sua luta, acabou vivendo anos de prisão domiciliar e tornou-se um ícone da democracia e da busca de liberdade para seu povo. Por sua história, foi homenageada em uma famosa música da banda irlandesa U2: Walk On, que veio a ser um hit do álbum All That You Can’t Leave Behind, lançado em 2000. Acompanhe o vídeo gravado em um show da banda em 2011, que traz, inclusive, uma mensagem de Suu Kyi.

data="http://www.youtube.com/v/kT5Ify_hEks?rel=0" width="425" height="350">

Uma história de luta

Aung Sang Suu Kyi tem um DNA de luta. Seu pai foi o general Aung San (1915-1947), herói da independência de Mianmar, porém assassinado seis meses depois de ter conseguido libertar seu país. Sua mãe foi embaixadora da Birmânia na Índia.

Sua educação foi primorosa. Em Oxford, uma das mais famosas universidades do Reino Unido, estudou Filosofia, Política e Economia.   Regressou à capital de seu país, Rangoon (hoje Yangon), em 1988, para cuidar de sua mãe, que estava enferma. Na época, milhares de estudantes, trabalhadores e monges foram às ruas por reformas democráticas. Nesse período, ela organizou reuniões e viagens ao redor do país conclamando o povo para a busca da paz, de reformas democráticas e de eleições livres.

O exército, que, na época, reprimiu violentamente essas manifestações, em setembro de 1988 acabou tomando o poder. O país passou a ser governado por uma junta militar. Calcula-se que cerca de 3 mil pessoas foram mortas e centenas, presas sem julgamento. Aung auxiliaria na formação de um novo partido: NLD (Liga Nacional pela Democracia). Em 1989, por sua ativa participação nos movimentos, Suu Kyi foi detida. A junta militar concordou em libertá-la, com a condição de que ela deixasse o país. Ela recusou a proposta. Só deixaria Mianmar quando o país voltasse a ser governado por civis e tivesse seus presos políticos libertos.

Em 1990, os militares permitiram que fossem realizadas eleições no país. Apesar de Suu Kyi não poder se candidatar à NLD, seu partido venceu a maioria dos cargos. Mesmo com a vitória, a democracia não se concretizou, e a junta militar não permitiu que os vencedores ocupassem seus cargos, seguindo no governo.

Por sua luta (mesmo em cárcere) pela democracia em Mianmar, ela se tornou um verdadeiro símbolo internacional de resistência pacífica. Em 1991, foi laureada com o Prêmio Nobel da Paz, entre outras premiações.

O retrato de Aung San Suu Kyi, por um artista de rua. Foto: Eden, Janice and Jim. Licenciado por CC BY 2.0.

O retrato de Aung San Suu Kyi, por um artista de rua. Foto: Eden, Janice and Jim. Licenciado por CC BY 2.0.

Enquanto esteve presa - foram ao todo 15 anos de prisão domiciliar, com algumas interrupções -, Aung ficou afastada dos filhos, não os tendo visto crescer. Não chegou a conhecer os netos e não pôde acompanhar a doença de seu esposo, que acabou padecendo de câncer longe dela.

São pedaços dessa história que podem ser observados na música Walk On. Veja parte dela traduzida.

(…)

(Refrão)

Continue em frente, continue em frente

O que você conquistou eles não lhe podem negar

Não podem vendê-la, nem podem comprá-la

Continue em frente, continue em frente

Mantenha-se segura esta noite

E eu sei que dói

Como o seu coração se partiu

Você pode aguentar mais um pouco

Continue em frente, continue em frente

(…)

Imagens de Suu Kyi projetadas durante um dos shows do U2. Foto: Paul. Licenciado por CC BY 2.0.

Imagens de Suu Kyi projetadas durante um dos shows do U2. Foto: Paul. Licenciado por CC BY 2.0.

A sonhada liberdade

No fim de 2010, ocorreram eleições “livres” em Mianmar, porém grupos que lutam pela democracia no país, inclusive Aung, apontaram farsas nas eleições, já que, a população foi coagida em alguns casos a votar em ex-militares. Também foi nesse ano que Aung foi liberta de mais uma temporada de cárcere.

Em janeiro de 2012, Mianmar deu um passo que agradou as organizações democráticas: libertou mais de 600 presos políticos, ação pela qual Aung tanto lutou e que era demanda de diversos países e órgãos internacionais e que com a voz do U2 se propagou para milhares de fãs ao redor do mundo.

Muitas mudanças ainda precisam acontecer em Mianmar, que é um dos países com altíssimos índices de corrupção e pobreza. Independentemente disso, a história de Aung mostra-nos que uma pessoa bem intencionada pode impactar não só o seu país, mas todo o mundo, mesmo que, para isso, tenha que pagar um alto preço.

Por Priscila Pugsley Grahl de Miranda.

Presos políticos finalmente libertos em Mianmar

Mianmar, antiga Birmânia, localiza-se no sul da Ásia e estava sofrendo forte pressão interna e externa para libertar seus presos políticos. Em 13 de janeiro de 2012, ela deu um grande passo, comemorado pelas agências que monitoram os direitos humanos no mundo: libertou mais de 650 homens e mulheres de suas prisões.

Você sabe o que é um preso político?

É qualquer pessoa presa ou em detenção por suas atividades políticas ou por suas opiniões contrárias às do governo estabelecido.

Agora, conheça mais sobre Mianmar e acompanhe como o país gerou tantos presos políticos, por meio de momentos de sua história.

Até 1989, a atual Mianmar chamava-se Birmânia. A mudança de nome ocorreu com a ascensão da junta militar ao poder.

Até 1989, a atual Mianmar chamava-se Birmânia. A mudança de nome ocorreu com a ascensão da junta militar ao poder.

Mianmar

Mianmar é um dos países mais pobres da Ásia, com um dos governos mais corruptos, e enfrenta diversas sanções econômicas ocidentais dos EUA, União Europeia e Canadá.

O país é rural, densamente florestado, e o maior importador de teca, uma espécie de madeira de excelente qualidade. Também está entre os grandes exportadores de heroína. No seu território, podem ser obtidos ouro, jade, rubis, safiras e pérolas. Também possui importantes depósitos de petróleo e gás. Mesmo cheio de riquezas, sua população é pobre e vive assolada por guerras civis internas entre etnias e o governo.

O dia 13 de janeiro de 2012, além destacar-se pela liberação dos prisioneiros, foi marcado por um acordo de cessar fogo entre a etnia Karen e o governo de Mianmar. O braço militar dessa etnia, a União Nacional Karen, chegou a dispor de 30 mil combatentes bem armados. Os conflitos entre os soldados da junta militar e a guerrilha geraram milhares de refugiados.

Mianmar é um país onde cerca de 90% da população segue o budismo e caracteriza-se como tipicamente rural. Foto: Greg Walters. Licenciado por CC BY 2.0.

Mianmar é um país onde cerca de 90% da população segue o budismo e caracteriza-se como tipicamente rural. Foto: Greg Walters. Licenciado por CC BY 2.0.

Mianmar é repleto de templos, um atrativo ao turismo. Porém, a renda da atividade turística não é revertida para a população em geral. Foto: McKay Savage. Licenciado por CC BY 2.0

Mianmar é repleto de templos, um atrativo ao turismo. Porém, a renda da atividade turística não é revertida para a população em geral. Foto: McKay Savage. Licenciado por CC BY 2.0

O país e seus presos políticos

O ano de 1988

Diversos personagens famosos da história de Mianmar foram libertos no dia 13. Entre eles, está Min Ko Naing, dirigente estudantil do movimento Geração 88. Para entendermos sua prisão, precisamos saber que de 1962 a 1988 a Birmânia viveu sob o regime comunista.

Em 1988, os birmaneses foram às ruas em diversas manifestações pedindo paz, reformas democráticas e eleições livres. Em setembro, o exército, que reprimiu as manifestações populares, deu um golpe de estado e tomou o poder no país. Durante esse período, aproximadamente 3 mil pessoas foram mortas, e milhares, encarceradas em prisões ou cárceres privados, com penas que podiam chegar a 65 anos de reclusão.

Em 1990, os militares convocaram eleições nacionais. Porém, os vencedores foram impedidos de assumir o poder. O país seguiria sob o comando militar por mais duros anos.

A Revolução de Açafrão

Cerca de 90% da população de Mianmar segue o budismo, e em 2007, foram os monges dessa religião que liderariam uma importante manifestação contra a junta militar.

Não é novidade na história da Birmânia a mobilização dos monges em causas políticas. Entre 1824 e 1886, a Birmânia foi colônia inglesa. Os monges tomaram vanguarda no movimento pela independência, assumindo uma postura de conflito contra os colonizadores. O que motivou primeiramente sua indignação foi a recusa dos ingleses de retirar os sapatos ao adentrar nos templos, um sinal de desrespeito.

Em 2007, eles aderiram novamente a causas políticas. Tudo começou em 15 de agosto, quando o governo anunciou um grande aumento dos combustíveis (que impactou transporte coletivo, gás de cozinha, bem como o preço dos gêneros alimentícios). Lesada em seu poder de compra, em 19 de agosto a população foi às ruas, e a repressão foi violenta, com diversos manifestantes presos. Os protestos espalharam-se rapidamente por outras cidades.

As manifestações, pacíficas, foram reprimidas com violência pelo governo, o que levou os monges a participarem das movimentações no final de agosto. A princípio, eles pediam que os militares se desculpassem com a população pela reação violenta. Com o tempo, mudaram o discurso, pedindo a saída da junta militar e o retorno a democracia.

Em 20 de setembro, como represália à participação dos monges, as autoridades fecharam o famoso Pagode de Schwegadon. Foto: Greg Walters. Licenciado por CC BY 2.0.

Em 20 de setembro, como represália à participação dos monges, as autoridades fecharam o famoso Pagode de Schwegadon. Foto: Greg Walters. Licenciado por CC BY 2.0.

Em 23 de setembro, aproximadamente 1.300 monges protestaram nas ruas de Yangon. No começo, o governo militar não reagiu de forma violenta à ação dos monges, mas em 26 de setembro passou a coibir as manifestações com bastões e uso de gás lacrimogênio. A violência contra a população civil e os religiosos continuou, com feridos, ao menos 13 mortos e milhares de presos.

Os protestos ficaram conhecidos como Revolução do Açafrão. Um dos líderes foi o monge Gambira, que foi preso na época e está na lista de libertos do dia 13.

Simpáticos à causa de Mianmar pedem o retorno à democracia no país em manifestação pública em Amsterdã (29 de setembro de 2007). No cartaz, a figura de Aung Sang Suu Kyi, símbolo da luta pacífica pela liberdade daquele país. Foto: Franz Patzig. Licenciado por CC BY 2.0.

Simpáticos à causa de Mianmar pedem o retorno à democracia no país em manifestação pública em Amsterdã (29 de setembro de 2007). No cartaz, a figura de Aung Sang Suu Kyi, símbolo da luta pacífica pela liberdade daquele país. Foto: Franz Patzig. Licenciado por CC BY 2.0.

O Ciclone Nargis

Se não bastassem os problemas internos, o país foi arrasado em 2008 pelo Ciclone Nargis, com um saldo de 138 mil mortos, milhares de feridos e sem-tetos.

O início dos ventos que arrasariam algumas regiões de Mianmar. Foto: Mohd Azmil Abdul Rahman. Licenciado por CC BY 2.0.

O início dos ventos que arrasariam algumas regiões de Mianmar. Foto: Mohd Azmil Abdul Rahman. Licenciado por CC BY 2.0.

Evento público pede democracia para Mianmar, conhecida no exterior com o nome de Burma.  Foto: Burma Democratic Concern (BDC). Licenciado por CC BY 2.0.

Evento público pede democracia para Mianmar, conhecida no exterior com o nome de Burma. Foto: Burma Democratic Concern (BDC). Licenciado por CC BY 2.0.

Eleições e a libertação dos presos políticos

Depois de mais de 20 anos sem eleições, em novembro de 2010, Mianmar elegeu novos parlamentares, passando a ter um governo civil, porém composto em grande parte por ex-militares. O novo governo, que assumiu em 2011, anunciou reformas democráticas, e a libertação dos presos estava entre elas.

O cumprimento dessa promessa em 2012 foi visto com bons olhos pelas organizações internacionais, que pensam, inclusive, dependendo da continuidade das ações positivas do governo, suspender as sanções econômicas que vigoram há anos contra o país.

Por Priscila Pugsley Grahl de Miranda

Os horrores da guerra química

As estratégias militares dos EUA envolvendo armas químicas durante a Guerra do Vietnã

A Guerra do Vietnã pode ser dividida em dois grandes momentos. O primeiro, um conflito em que as forças nacionalistas vietnamitas lutaram contra os colonialistas franceses (1946-1954), e o segundo, quando o governo comunista do Vietnã do Norte e seus aliados do Vietnã do Sul (conhecidos como vietcongues) lutaram contra o governo do Vietnã do Sul (1964-1975). Nesta guerra, o Sul teve os Estados Unidos como seu mais forte aliado.

A tática utilizada pelos vietcongues para vencer o Sul era a guerra de guerrilhas, facilitada pela natureza da região: a maior parte do sul do Vietnã era coberta por uma densa camada de florestas. Esse fator, ligado ao conhecimento que os vietcongues tinham da região, fez com que, mesmo dispondo de equipamentos inferiores, acabassem vencendo em diversos momentos os soldados estadunidenses.

Para reverter o quadro, os estrategistas militares dos EUA optaram por uma arma radical: o uso de herbicidas, agrotóxicos conhecidos com os nomes de agente rosa, azul, branco, verde ou laranja - este último, o mais utilizado. Essas substâncias tinham o poder de desfolhantes. Eram pulverizadas sobre as florestas do Vietnã, matando insetos, pássaros, macacos e desfolhando, não com muito sucesso, a região.

C-123, um dos aviões utilizados na operação Pink Rose e em outras missões de desfolhação. National Archives (342-B-VN-5-KKE-19010)

C-123, um dos aviões utilizados na operação Pink Rose e em outras missões de desfolhação. Foto: National Archives (342-B-VN-5-KKE-19010)

Na época, alertava-se que essas substâncias não causavam mal para animais ou seres humanos, porém havia um problema: durante sua fabricação, elas produziam uma toxina chamada dioxina. Esse composto, cancerígeno, causava uma série de problemas, entre eles danos no fígado e mutações genéticas.

Fogo

Em 1967, os EUA, para facilitarem o desflorestamento, testaram essas substâncias químicas com fogo em uma operação chamada de Pink Rose. Após pulverizarem uma grande área, lançaram bombas incendiárias. O que talvez não se sabia na época é que o fogo aumentava em 25% a toxicidade presente nos agentes químicos, causando danos que seriam irreversíveis tanto ao solo quanto aos seres vivos da região.

Durante o programa de testes Pink Rose, áreas alvo próximas a Tay Ninh e An Loc, no Vietnã, foram pulverizadas duas vezes com agentes desfolhantes. Depois o local foi alvo de bombas incendiárias. 01/1967. Foto: National Archives (NWDNS-342-C-KE24811)

Durante o programa de testes Pink Rose, áreas alvo próximas a Tay Ninh e An Loc, no Vietnã, foram pulverizadas duas vezes com agentes desfolhantes. Depois o local foi alvo de bombas incendiárias. 01/1967. Foto: National Archives (NWDNS-342-C-KE24811)

As consequências do uso dessas substâncias foram terríveis para todos os que tiveram contato com elas, inclusive os próprios soldados estadunidenses. Esses, durante as missões, eram algumas vezes encharcados com o composto, ou mesmo tinham contato com ele na comida que ingeriam e na água que bebiam. Os próprios pilotos de avião estavam sujeitos à intoxicação. O resultado pode ser visto em diversas queixas de veteranos da guerra que sofriam de tonturas, sangramento no nariz e na boca, problemas de pele além de violentas dores de cabeça. Mais tarde, alguns desenvolveram câncer. Os médicos do exército passaram anos sem relacionar esses sintomas à contaminação com o agente laranja.

Já para os vietnamitas, os problemas foram muito maiores. Além de sofrerem com florestas incendiadas, morte dos manguezais e dos peixes, água contaminada e solo tóxico, passaram a apresentar sintomas como fraqueza, vômitos, sangramento, entorpecimento das mãos e dos pés bem como enxaquecas. A partir de 1967, as mães passaram a abortar espontaneamente seus filhos ou dar à luz crianças que nasciam com hidrocefalia e deformações congênitas das mais diversas. Seus filhos estavam sendo alterados geneticamente graças à toxina que passava através da placenta. Apesar de médicos da região acreditarem que os problemas advinham do uso de pesticidas, demorou muito tempo para o governo vietnamita confirmar essa suposição.

Um helicóptero aplica um agente desfolhante na densa área florestada no delta do Rio Mekong - 26/07/1969. Foto: al Archives (NWDNS-111-C-CC59950)

Um helicóptero aplica um agente desfolhante na densa área florestada no delta do Rio Mekong - 26/07/1969. Foto: National Archives (NWDNS-111-C-CC59950)

O fim da guerra

Foi somente em 1970 que os EUA suspenderam o uso do agente laranja. Em 30 de abril de 1975, os vietnamitas do Norte invadiram Saigon, dando fim à longa guerra e obrigando os EUA a abandonarem a região, sem obterem a vitória. Além do uso de substâncias químicas, muitas outras atrocidades foram cometidas na região.

O saldo do conflito foi terrível: 58.135 estadunidenses mortos em combate; 304.704 feridos; e mais de 5 milhões de vietnamitas mortos ou feridos.

Foram utilizados mais de 20 milhões de galões de agentes químicos em cerca de três milhões de acres no sul do Vietnã. Cerca de 3 milhões de vietnamitas, entre eles 500 mil crianças, ainda sofrem os legados da guerra química.

Tanto gerações de vietnamitas quanto de estadunidenses cujos pais tiveram contato com a dioxina ainda apresentam mutações genéticas, mostrando que os tristes efeitos da guerra e de ações tomadas durante ela podem durar por décadas.

Por Priscila Pugsley Grahl de Miranda

A rara cor vermelha

Quanto custa uma roupa vermelha? Será que ela é mais cara ou mais barata do que peças de outros tons? Se hoje você visitar uma loja para comprar uma camiseta vermelha, provavelmente vai pagar o mesmo preço que pagaria por qualquer outra. Nem sempre foi assim…

Na Antiguidade e na Idade Média, para tingir um determinado tecido, utilizavam-se pigmentos naturais, isso é, a tintura era extraída a partir da maceração (ou outro processo) de folhas, flores e outros elementos do ambiente… Esse método era bem complicado para a cor vermelha, pois não existiam muitos itens na natureza que traziam um pigmento duradouro dessa cor ou de seus tons.

Foram os fenícios que descobriram como tingir os tecidos de vermelho. Na costa do atual Líbano, habitada por esse povo, abundava um molusco, o múrex. Ele possuía uma glândula com tintura vermelha que era extraída e utilizada para tingir diferentes tecidos. Como o processo era demorado e só eles dominavam essa técnica, vendiam os materiais por uma fortuna em suas viagens pelo Mar Mediterrâneo!!! Quem adquiria peças dessa cor eram pessoas poderosas, como nobres e reis. Dário, rei dos persas, se vestia de vermelho e durante séculos a cor esteve relacionada à distinção social. 

Do múrex se extraía o pigmento vermelho que deu fama aos fenícios. Seu nome está relacionado a essa cor. Phoini é um radical grego que significa vermelho. Phoinikes era o nome do tecido de cor púrpura. Os latinos chamavam esse povo de phoeniciu, nome similar ao que conhecemos.  Foto: Anders Sandberg. Licenciado por CC BY 2.0.

Do múrex se extraía o pigmento vermelho que deu fama aos fenícios. Seu nome está relacionado a essa cor. Phoini é um radical grego que significa vermelho. Phoinikes era o nome do tecido de cor púrpura. Os latinos chamavam esse povo de phoeniciu, nome similar ao que conhecemos. Foto: Anders Sandberg. Licenciado por CC BY 2.0.

Na Idade Média, descobriu-se que uma madeira, conhecida como pau-de-tinta ou pau-brasil (por ter a cor de brasa), quando triturada e ralada, dava origem a um pigmento vermelho, próprio para colorir tecidos. A árvore existia na Ásia e já era conhecida dos portugueses. Quando eles aportaram no Brasil, em 1500, se surpreenderam com a abundância dessa madeira nas costas brasileiras. Existem controvérsias, porém alguns pesquisadores afirmam que foi devido à abundância dessa madeira que se atribuiu o nome de Brasil ao nosso País.

O pau-brasil. Quando triturado e ralado, dava origem a um raro pigmento utilizado para colorir de vermelho tecidos para a nobreza e para os poderosos. Foto: mauroguanandi. Licenciado por CC BY 2.0.

O pau-brasil. Quando triturado e ralado, dava origem a um raro pigmento utilizado para colorir de vermelho tecidos para a nobreza e para os poderosos. Foto: mauroguanandi. Licenciado por CC BY 2.0.

O pau-brasil foi a principal riqueza explorada nas nossas terras durante o Período Pré-Colonial (1500-1530). A madeira, que atingia grandes lucros na Europa, era alvo da ação inclusive de piratas, principalmente franceses, que vinham ao nosso território roubar o material. O governo português - que recebia impostos sobre o valor do pau-brasil - tentou impedir a ação de piratas trazendo as expedições guarda-costas ao litoral e, a partir de 1530, colonizando o território. 

A ação exploratória portuguesa foi devastadora, tanto que, no século XVIII, a árvore (antes extraída da costa e, mais tarde, do interior) já estava praticamente em extinção.

Foi somente com a Revolução Industrial, iniciada no final do século XVIII, na Inglaterra, que a indústria química conseguiu desenvolver o pigmento artificialmente e o vermelho passou, aos poucos, a se popularizar. Quando você vestir uma roupa vermelha, lembre-se de que ela tem muita história!  

Por Priscila Pugsley Grahl de Miranda

Dia de Ação de Graças

Em filmes hollywoodianos e em séries de TV, é comum vermos personagens que participam de um banquete de Thanksgiving. A festa, uma das mais importantes da cultura estadunidense, é celebrada na última quinta-feira de novembro e reúne familiares e amigos com o objetivo de agradecer as coisas boas que ocorreram no ano. A celebração tem origem em uma antiga história de gratidão. Vamos conhecê-la.

Alguns dos pratos tradicionais do jantar do Dia de Ação de Graças. Foto: Maggie Not Margaret. Licenciado por CC BY 2.0

Alguns dos pratos tradicionais do jantar do Dia de Ação de Graças. Foto: Maggie Not Margaret. Licenciado por CC BY 2.0

A tradição

Perseguições religiosas do século XVII levaram inúmeros imigrantes ingleses a partirem para a colônia britânica na América, conhecida hoje como Estados Unidos, em busca de liberdade. Nem sempre a chegada era bem-sucedida, pois dificuldades de adaptação, o frio, a falta de comida e outros fatores acabavam dizimando diversos membros do grupo.

Essa história também ocorreria com os peregrinos que chegaram a bordo do barco Mayflower que desembarcou no porto de Plymouth, fundando ali uma colônia. Com o inverno rigoroso e a falta de conhecimento da terra, metade dos habitantes pereceu até que recebesse ajuda de uma tribo indígena local. Com eles aprenderam a pescar, caçar e plantar. Entre os novos alimentos que conheceram por meio dessa aliança estão o milho, a abóbora e o peru.

Uma réplica do Mayflower, no porto de Plymouth, Massaschusetts. Em 1620, o navio trouxe os imigrantes (peregrinos) que celebraram o Dia de Ação de Graças. Foto: Scott Robinson. Licenciado por CC BY 2.0.

Uma réplica do Mayflower, no porto de Plymouth, Massaschusetts. Em 1620, o navio trouxe os imigrantes (peregrinos) que celebraram o Dia de Ação de Graças. Foto: Scott Robinson. Licenciado por CC BY 2.0.

As técnicas agrícolas ensinadas pelos indígenas foram fundamentais, fazendo com que a colheita do ano de 1621 fosse abundante, preenchendo os celeiros para o inverno. Graças a esses resultados, o governante da região celebrou uma festa de aproximadamente três dias, um grande banquete, reunindo peregrinos e nativos. Os relatos históricos apontam que a comida servida foi carne de caça  (possivelmente de veado), aves selvagens (não se sabe se era o peru), milho e frutas.

Não se sabe se o peru, prato principal da festa atual de Ação de Graças, fez parte da primeira celebração. Foto: Gavin St. Ours. Licenciado por CC BY 2.0.

Não se sabe se o peru, prato principal da festa atual de Ação de Graças, fez parte da primeira celebração. Foto: Gavin St. Ours. Licenciado por CC BY 2.0.

A festa hoje

A festa tornou-se nacional nos EUA por meio de um decreto do presidente Abraham Lincoln, em 1860, e hoje é um feriado muito especial. Nessa data o banquete é tradicional e pratos como peru, milho, torta de abóbora, geleia de amora e frutas não podem faltar, lembrando, assim, parte da primeira celebração.

A data também é reservada para um jogo oficial de futebol americano - que mobiliza os aficionados em esportes - bem como para a famosa parada da loja de departamentos Macy’s, que atrai milhares de nova-iorquinos às ruas para admirar as músicas e os desfiles de personagem flutuantes gigantes. O evento marca a temporada de compras para o Natal.

O peru gigante da famosa parada em Nova Iorque. No topo, os peregrinos vestem roupas tradicionais.  Foto: Martha_chapa95. Licenciado por CC BY 2.0

O peru gigante da famosa parada em Nova Iorque. No topo, os peregrinos vestem roupas tradicionais. Foto: Martha chapa95. Licenciado por CC BY 2.0

Enquanto muitos estadunidenses celebram, parte da população não tem nada para comemorar. Nessa data, relembram os massacres promovidos pelos imigrantes ingleses contra a população indígena, as apropriações das melhores terras nativas pelos “invasores”, bem como a diminuição da população local, obrigada a se confinar em reservas desérticas, perdendo, assim, seus recursos, mudando seu modo de vida e sendo obrigada a sobreviver com o pouco que lhe restou.

Por Priscila Pugsley Grahl de Miranda

Porcelanas que valem milhões!

Porcelanas que valem milhões!

No início de outubro de 2011, um vaso da dinastia Ming foi leiloado pela casa Sotheby’s de Hong Kong por 21,6 milhões de dólares. Até hoje é o valor mais alto já pago por uma peça desse gênero.

O vaso tem mais de 500 anos e apresenta as cores azul e branca, típicas da porcelana Ming, que é considerada pelos especialistas em arte como obras de um alto grau de perfeição. O comprador, anônimo, deu um lance por telefone e arrematou a cobiçada peça.

Analistas do mercado de artes avaliam que, com o crescimento econômico chinês, cidadãos do país com alto poder aquisitivo estão aplicando em obras de arte, tanto contemporâneas quanto antigas. O investimento também está relacionado ao resgate do passado chinês. Os colecionadores buscam peças que retratem os grandes momentos da história chinesa, entre elas, as que foram produzidas durante o período Ming.

Um vaso da dinastia Ming exposto em um museu. Foto: Veronika Brazdova. Licenciado por CC BY 2.0

Um vaso da dinastia Ming exposto em um museu. Foto: Veronika Brazdova. Licenciado por CC BY 2.0

A dinastia Ming

A dinastia Ming (em chinês, brilhante) assumiu o poder na China em 1368 aproximadamente, após uma rebelião contra o domínio mongol. Sua ascensão marca um período de desenvolvimento, expansão territorial e influência política e cultural em outras regiões. Também se destaca o desenvolvimento das artes.

Entre suas ações estão a construção da Cidade Proibida, local que passou a ser a sede do governo, e a ampliação e reconstrução de partes da Grande Muralha para prevenir incursões como as dos mongóis. Foi durante essa dinastia que os comerciantes europeus e missionários chegaram à China e que a região se fechou para uma maior influência estrangeira.

A Cidade Proibida. Sua construção se iniciou em 1406, durante a dinastia Ming. Foto: nwhitford. Licenciado por CC BY 2.0

A Cidade Proibida. Sua construção se iniciou em 1406, durante a dinastia Ming. Foto: nwhitford. Licenciado por CC BY 2.0

Com medo de novas incursões mongólicas, os soberanos da dinastia Ming ampliaram a Grande Muralha. Foto: Corel Stock Photos.

Com medo de novas incursões mongólicas, os soberanos da dinastia Ming ampliaram a Grande Muralha. Foto: Corel Stock Photos.

Os primeiros contatos entre europeus e chineses ocorreram possivelmente por intermédio de mercadores portugueses estabelecidos em Macau. Entre os itens comercializados por eles estavam sedas, porcelanas e outros artigos de luxo que atingiam preços estratosféricos entre as classes mais abastadas europeias. É importante ressaltar que, no período, os europeus não conheciam os segredos de fabricação das porcelanas - guardados pelos chineses a sete chaves… Só foram produzi-la, em qualidade similar a chinesa, no século XVI, em Florença, na Itália.

Um exemplo de porcelana chinesa, exposto no museu da Cidade Proibida. Foto: Ivan Walsh.com. Licenciado por CC BY 2.0

Um exemplo de porcelana chinesa, exposto no museu da Cidade Proibida. Foto: IvanWalsh . com . Licenciado por CC BY 2.0

Em 1644 teve fim a dinastia Ming. Neste ano foi enterrado seu último imperador. Atualmente, peças pertencentes a esse período se valorizam cada vez mais. Fica somente uma pergunta: será que um vaso ou qualquer obra de arte vale realmente essa fortuna?

Por Priscila Pugsley Grahl de Miranda

Fim da anistia aos militares

As décadas de 1950 a 1980 foram obscuras na América Latina. O período foi marcado pela ascensão de diferentes ditaduras militares, apoiadas pelos EUA. A liberdade foi reprimida. Apresentar ideias que fossem diferentes da oficial gerava perseguições, prisões e confinamento.

Torturas, mortes, pessoas desaparecidas, crianças sequestradas. Esse foi o saldo de décadas de ditadura na região. A partir dos anos 1980, iniciou-se um movimento de redemocratização em diversos países da região. O Brasil, por exemplo, optou pela anistia geral e irrestrita. O que isso significa? Ao mesmo tempo que trouxe perdão a presos políticos e fez com que diversos exilados regressassem à pátria, perdoou também seus algozes.

O caso uruguaio

No final do mês de outubro de 2011, o Uruguai reviu suas medidas e aprovou o fim da Lei da Anistia aos militares. Isso significa que os crimes contra os direitos humanos cometidos na época em que o país viveu sob ditadura - de 1973 a 1985 - poderão ser julgados. A medida também revoga a Ley de Caducidad, tornando imprescritíveis esses crimes. A votação na Câmara dos Deputados foi bem apertada. Foram 50 votos contra 40.

A Lei da Anistia é um assunto polêmico. Ela havia sido aprovada pelo governo uruguaio em 1986 e confirmada pela população em dois plebiscitos: um em 1989 (quando os uruguaios ainda viviam sob o medo da ditadura) e outro em 2009. Portanto, aprovar o fim da lei, ao mesmo tempo que é pedir justiça, é ir contra alguns artigos da Constituição e a própria opinião popular - em muito influenciada pelo lobby militar, fortíssimo na região. 

Dois dias depois de aprovada a lei, o Uruguai abriu processo contra sete acusados de tortura e assassinato. Eles agora podem ser enquadrados nos crimes de lesa-humanidade. A última palavra sobre o assunto será da Suprema Corte, que tem poder para revogar a lei.

Influência argentina

As medidas tomadas no Uruguai não estão sozinhas na América Latina. A Argentina revogou a Lei da Anistia em 2003 e, desde então, começou a julgar os crimes cometidos durante a Ditadura Militar, que lá durou de 1976 a 1983. Em 26 de outubro de 2011, ela condenou 16 militares por crimes contra a humanidade, 13 foram sentenciados à prisão perpétua e três a mais de 18 anos de prisão. A maioria desses casos está relacionada à Esma (Escola Superior da Marinha) em Buenos Aires. O local foi um dos maiores centros de detenção clandestina e de extermínio. Estima-se que 5.000 vítimas da ditadura argentina passaram por lá, entre elas, uma das fundadoras da Associação Madres de la Plaza de Mayo, Azucena Villaflor, desaparecida em dezembro de 1977.

Uma calçada da Argentina marca o local onde foram sequestrados dois militantes populares durante o período de ditadura. Crédito: Suzana Gudolle Dias de Bem. Licenciado por CC BY 2.0.

Uma calçada da Argentina marca o local onde foram sequestrados dois militantes populares durante o período de ditadura. Crédito: Suzana Gudolle Dias de Bem. Licenciado por CC BY 2.0.

Esma, um dos centros de detenção, tortura e extermínio da ditadura argentina. Hoje o local é um memorial que narra a dramática história do período. Foto: ferNNando. Licenciado por CC BY 2.0.

Esma, um dos centros de detenção, tortura e extermínio da ditadura argentina. Hoje o local é um memorial que narra a dramática história do período. Foto: ferNNando. Licenciado por CC BY 2.0.

As mães que tiveram seus filhos sequestrados e desaparecidos durante a Ditadura Militar argentina - as Madres de la Plaza de Mayo - têm como símbolo uma fralda de algodão atada na cabeça. Foto: Richie Diesterheft. Licenciado por CC BY 2.0

As mães que tiveram seus filhos sequestrados e desaparecidos durante a Ditadura Militar argentina - as Madres de la Plaza de Mayo - têm como símbolo uma fralda de algodão atada na cabeça. Foto: Richie Diesterheft. Licenciado por CC BY 2.0

O movimento argentino bem como a pressão europeia influenciaram o Uruguai e têm influenciado o Brasil, que começa a rever esse período, ainda a passos lentos. Espera-se que essa onda tome conta da América Latina. Os direitos humanos e os familiares que ainda esperam justiça agradecem!

Por Priscila Pugsley Grahl de Miranda

Guerra ao Terror: perdas culturais

A Guerra do Iraque, ou Segunda Guerra do Golfo, iniciada março de 2003, com a invasão dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha ao Iraque, prejudicou a população local, devido às perdas, às privações e ao empobrecimento em geral – que costumam acontecer durante esse tipo de conflito. Mas, além disso, causou danos ao Patrimônio Histórico da Humanidade, em consequência das pilhagens de peças de museu e da destruição de sítios arqueológicos e de monumentos.

 

A invasão teve como objetivo principal capturar o ditador Saddam Hussein. Naquele momento, ele era acusado de guardar armas de destruição em massa em seu país e de manter ligações com grupos terroristas internacionais e, principalmente, com a Al Qaeda.

 

Após mais de sete anos de combates, nenhuma dessas acusações ficou comprovada. Porém, a população iraquiana passou a sofrer mais com a ausência de um governo forte e o consequente aumento das desavenças entre os grupos étnicos e religiosos que formam a sociedade: os árabes, os curdos, os sunitas e os xiitas.

 

Desde quando foi declarado o fim da guerra, em 2010, o governo dos Estados Unidos tem planejado desocupar o país e deixar a população local em segurança, ou seja, com um governo reorganizado. Mas, até então, os esforços nesse sentido não têm apresentado resultados concretos.

 

Nesse contexto, a humanidade foi lesada no que concerne à destruição de boa parte seu Patrimônio Cultural e Histórico, uma vez que o território do Iraque corresponde à região da Mesopotâmia, que é um dos berços da civilização.

 

Nessa região, vestígios de civilizações que viveram há mais de 5 mil anos estão em risco de desaparecimento devido às constantes guerras e pilhagens. O local abriga inúmeros sítios arqueológicos, ruínas e monumentos dos sumérios, acádios, assírios e babilônios. Ali, entre os vales dos rios Tigre e Eufrates, surgiram os primeiros centros urbanos, a arquitetura monumental de templos e palácios, a escrita cuneiforme, as primeiras leis escritas, a astronomia e a astrologia – além de diversas inovações tecnológicas e tantas outras realizações que se perderam nos registros destruídos.

 

Durante o início da ocupação estadunidense, em 2003, além da destruição de sítios arqueológicos por bombardeios e pela passagem de tanques de guerra, o Museu Arqueológico de Bagdá, um dos mais importantes do mundo, sofreu um dos maiores saques de todos os tempos. Muito mais de 100 mil peças de grande valor histórico e arqueológico foram roubadas. Não apenas a população empobrecida e desesperada por dinheiro subtraía obras da instituição, mas também pessoas esclarecidas, que conheciam o seu valor científico e que sabiam fazer escavações. O destino final das peças eram os traficantes de obras de arte e de tesouros arqueológicos.

 

Exército estadunidense em Bagdá. Atribuição 2.0 Genérica (CC BY 2.0). Por james_gordon_los_angeles

Exército estadunidense em Bagdá. Atribuição 2.0 Genérica (CC BY 2.0). Por james_gordon_los_angeles

 

Na época, diversos cientistas e a própria Unesco tentaram comunicar autoridades estadunidenses do que estava acontecendo. Contudo, essa não era uma prioridade para os militares. Financeiramente, as perdas são incalculáveis e cientificamente significam pesquisas que nunca mais serão realizadas.

 

Graças à tecnologia e com o objetivo de evitar perdas maiores, um projeto do CNR (Conselho Nacional de Pesquisa da Itália) disponibilizou imagens de parte do acervo no Museu Virtual do Iraque. As imagens em 3D podem ser apreciadas e estudadas de qualquer lugar do mundo com acesso à rede mundial de computadores. As salas do museu virtual foram organizadas de acordo com os períodos históricos, e nelas podem ser visitados desde artefatos pré-históricos até peças produzidas no mundo islâmico. Vale a pena conferir!

 

Por Adriana Fortes Ribeiro

Morre Kadhafi, ex-ditador da Líbia

O ditador da Líbia durante 41 anos, Muammar Kadhafi, morreu hoje, 20/10, durante a operação do atual governo ou Conselho Nacional de Transição (CNT) para capturá-lo na cidade de Sirte. Primeiramente, foram divulgadas notícias de que ele estava apenas ferido. Horas mais tarde, porém, a mídia afirmou que ele não resistiu aos ferimentos sofridos durante o combate.

O líder líbio, Muammar Kadhafi, e o ministro das Relações Exteriores do Barein, Khalid bin Ahmed al Khalifa, em uma reunião. Por Bahrain Ministry of Foreign Affairs. CC BY-ND 2.0

O líder líbio, Muammar Kadhafi, e o ministro das Relações Exteriores do Barein, Khalid bin Ahmed al Khalifa, em uma reunião. Por Bahrain Ministry of Foreign Affairs. CC BY-ND 2.0

Ele estava foragido desde agosto, quando a capital, Trípoli, foi tomada por grupos rebeldes que faziam oposição ao regime. O ex-líder estava se mantendo resistente ao novo governo e contava com alguns grupos de combatentes fiéis a ele. A resistência às mudanças criou uma rivalidade entre os grupos pró e contra Kadhafi que levaram à morte cerca de 6 mil líbios, entre civis e militares.


Agora, as forças militares do novo governo estão empreendendo uma busca pelos familiares de Kadhafi e seus partidários, que também deverão responder por seus crimes. O novo governo não pretende criar represálias contra os adeptos do antigo regime, mas está zelando pela segurança pública.


Nas últimas semanas, o líder do Conselho Nacional de Transição da Líbia, Mustafa Abdul Jalil, manifestou seu desejo de construir um estado moderno e democrático, um país islâmico “moderado”. Agora que o país está livre da ameaça do ex-ditador, resta esperar que Jalil consiga concretizar as ações de elaborar uma nova constituição e realizar eleições. Nesse particular, o país está recebendo ajuda da ONU.


Todos esses acontecimentos da Líbia não estão ocorrendo de forma isolada. Desde o final de 2010, têm surgido em países árabes do Oriente Médio e do norte da África diversos movimentos populares exigindo o fim de governos autocráticos e a implantação de regimes mais democráticos. Esses eventos têm sido chamados de Primavera Árabe.


Entre 1969 e 2010, Kadhafi governou a Líbia sob um regime ditatorial no qual cometeu diversos crimes políticos. A captura do ditador era apenas uma questão de tempo, pois o Tribunal Penal Internacional já havia expedido um mandato para prendê-lo por crimes contra a humanidade.

Assista ao vídeo e entenda a Primavera Árabe na Líbia.

data="http://www.youtube.com/v/v78muHmfcMI?rel=0" width="425" height="350">

Para saber mais sobre o presente e o passado da Líbia, leia o post Líbia.


Por Adriana Fortes Ribeiro

Por que o Prêmio Nobel da Paz de 2011 foi atribuído a três mulheres?

Em 2010, o Prêmio Nobel da Paz foi dedicado a Liu Xiaobo, um chinês que luta em favor da liberdade de expressão em seu país. Já em 2011, foi a vez de três mulheres lutadoras receberem o prêmio. Vamos conhecê-las.

A presidente

A liberiana Ellen Johnson Sirleaf é a primeira mulher a ser eleita presidente em um país africano. Ela é economista, tem 72 anos e já trabalhou na ONU e no Banco Mundial, sendo Ministra das Finanças da Libéria nas décadas de 1960 e 1980.

Ellen Johnson Sirleaf, presidente da Libéria. Center for Global Development (CGD). Licenciado por CC BY 2.0

Ellen Johnson Sirleaf, presidente da Libéria. Center for Global Development (CGD). Licenciado por CC BY 2.0

Quando assumiu o governo, em 2005, Sirleaf herdou um país com gigantescos problemas sociais, frutos de uma longa e terrível guerra civil. Foram 14 anos de conflito (1989-2003) com um saldo de aproximadamente 250.000 mortos, milhares de feridos e um excedente de armas. Tanto a economia quanto a infraestrutura do país ficaram arrasadas. A corrupção cresceu bem como o desemprego.

 

Sirleaf assumiu o governo, tentando atrair investidores ao país e melhorar as condições sociais, porém a tarefa é hercúlea e ainda são necessários muitos recursos, investimento e tempo para reconstruir o país. Os organizadores do Nobel reconhecem os esforços dela para promover o desenvolvimento econômico e social da região e para dar espaço à participação feminina.

A militante

Durante a guerra civil, Monróvia, a capital da Libéria, ficou sem eletricidade e água encanada. Sirleaf, ao assumir a presidência, resolveu parte do problema, porém o país, em geral, ainda padece com diversos problemas de infraestrutura. Foto: Erik (HASH) Hersman. Licenciado por CC BY 2.0

Durante a guerra civil, Monróvia, a capital da Libéria, ficou sem eletricidade e água encanada. Sirleaf, ao assumir a presidência, resolveu parte do problema, porém o país, em geral, ainda padece com diversos problemas de infraestrutura. Foto: Erik (HASH) Hersman. Licenciado por CC BY 2.0

Leymah Gbowee, assistente social e militante, também liberiana, irá partilhar o prêmio com as demais ganhadoras. Ela poderia ser uma personagem das obras clássicas gregas. Tal qual Lisístrata, que organizou uma greve de sexo para forçar atenienses e espartanos a estabelecerem a paz, ela empreendeu ato semelhante, em 2002, para acabar com a guerra civil que grassava em seu país.

Setor de Cartografia - Positivo Informática

Setor de Cartografia - Positivo Informática

Leymah era conhecida como a “guerreira da paz”. Conseguiu reunir um exército de mulheres, que, vestidas de branco, pediam a paz e, independentemente do credo, oravam pelo fim da guerra. Também teve uma importante participação em defesa dos direitos da criança.

Quando trabalhava como assistente social, durante a guerra, Leymah conviveu com histórias assustadoras de crianças soldados e a proteção delas passou a ser uma de suas bandeiras. As crianças, em diversas regiões africanas em conflito, são transformadas em guerreiras. Armadas (com armas de fogo adequadas ao seu corpo pequeno), drogadas e algumas vezes até bêbadas, são obrigadas a lutar, tal qual soldados, atirando, destruindo vilas e afligindo seus próprios irmãos. Sua recuperação é dificílima. Por seu papel como mulher e pelo incentivo à mobilização feminina, Leymah foi laureada.

A jornalista

A última premiada em 2011 foi uma jornalista e ativista política: Tawakul Karman. Ela vive no Iêmen, um país islâmico onde as mulheres têm poucos direitos e voz. Tawakul, porém, tem mudado esse padrão sendo uma das grandes militantes e vozes em favor da democracia e da ampliação dos direitos sociais e políticos em seu país. Sua luta faz parte da Primavera Árabe, um movimento que começou no final de 2010 e segue em 2011 em diversos países árabes.  

Setor de Cartografia - Positivo Informática

Setor de Cartografia - Positivo Informática

Quando recebeu a notícia do prêmio, na sexta-feira (07/10), ela nem sabia que estava concorrendo, e, inclusive, estava acampada em uma barraca na praça Tahir em Sana, capital do Iêmen, local das manifestações pacíficas que protestam pela saída do presidente Saleh.

Mulheres protestando no Iêmen na Primavera Árabe. Foto: Al Jazeera English. Licenciado por (CC BY-ND 2.0)

Mulheres protestando no Iêmen na Primavera Árabe. Foto: Al Jazeera English. Licenciado por (CC BY-ND 2.0)

Em sua luta pelo direito das mulheres, Karman fundou a ONG Mulheres Jornalistas sem Correntes. Também é dirigente de um partido político, o Al Islah – Reforma Islâmica. Quando recebeu o prêmio, ela dedicou-o aos que lutam na Primavera Árabe, principalmente “ao sangue dos mártires e dos feridos”.

O prêmio

O Prêmio Nobel corresponde a 1,5 milhão de dólares e será dividido entre as três laureadas. O presidente do comitê que as elegeu, Thorbjoern Jagland, comentou a escolha dizendo: “Não podemos alcançar a democracia e a paz duradoura no mundo se as mulheres não obtêm as mesmas oportunidades que os homens para influir nos acontecimentos em todos os níveis da sociedade”. 

Por Priscila Pugsley Grahl de Miranda