Toxina letal, solução estética ou remédio: as diferentes faces do Botox®

Como explicar o fato de uma substância com composição química específica apresentar a capacidade de desenvolver uma doença muitas vezes letal e ao mesmo tempo ser utilizada na medicina estética e, dependendo do uso, ainda ter efeito terapêutico, ou seja, salvar a vida das pessoas?

A substância em questão é uma toxina (veneno) produzida pela bactéria Clostridium botulinum que comercialmente (isso mesmo, é colocada à venda!) recebe a denominação de Botox®.

A fórmula química da toxina botulínica é C6760H10447N1743O2010S32. Na verdade, o que diferencia um ou outro uso desse composto químico é a diluição, ou seja, a quantidade que será aplicada.

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Botox®-toxina botulínica. Imagem: AJ Cann. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

Para entender melhor, vamos ver a ação dessa toxina nos três casos citados: a doença, a aplicação estética e a ação terapêutica. 

Doença: Botulismo

O botulismo é uma intoxicação, e não uma infecção, causada pela ação da toxina produzida por uma bactéria (Clostridium botulinum). O contágio se dá por meio de comida enlatada ou em conserva não suficientemente esterilizadas e, portanto, contaminadas com a bactéria. Há casos também de contágio por contato, através de ferimentos, com solo contaminado.

Causador: O responsável pela produção da toxina é o Clostridium botulinum, um bacilo gram positivo, anaeróbio, produtor de esporos, encontrado com frequência no solo, em alimentos, nas fezes humanas e em excrementos animais.

Toxina: Quando ingerida, apresenta ação neurotrópica (no sistema nervoso) e age como um verdadeiro veneno biológico, sendo letal na dose acima de 1/100 ng (10-11g) por kg corporal. É uma substância termolábil, ou seja, é destruída pela alta temperatura (de 65 a 80º C por 30 minutos ou a 100º C por 5 minutos).

Sintomas: Vômitos, vertigem, alterações da visão (visão turva, dupla, fotofobia), flacidez de pálpebras, distúrbios da deglutição, dificuldade de movimentos, agitação psicomotora, podendo provocar dificuldades respiratórias e cardiovasculares, levando à morte por parada cardiorrespiratória.

Tratamento estético: Botox®

Na área de medicina estética, o procedimento mais solicitado está relacionado à redução das marcas de expressão ou rugas que o tempo acaba esculpindo na face. A intervenção não cirúrgica mais requisitada é a aplicação de Botox® .

 

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Aplicação estética da toxina botulínica. Imagem: Vancouver Laser & Skincare Centre. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

Esse tratamento consiste na aplicação intramuscular de injeções com toxina botulínica em áreas específicas ao redor dos olhos, boca ou locais como a testa, pois nessas áreas os músculos faciais exercem maior força de contração. O Botox® provoca o relaxamento temporário no músculo, que não reage às ações neuronais, apresentando, assim, uma aparência alterada. Para muitos, a face assume um aspecto mais jovial.

O tratamento leva de 15 a 30 minutos mas seus resultados se mantêm apenas por quatro meses, em média. Segundo especialistas há a necessidade, então, de uma nova aplicação.

Cada ampola da toxina botulínica injetável contém toxina botulínica tipo A, albumina humana e cloreto de sódio.

A toxina pode ser isolada diretamente da cultura de bactéria ou sintetizada em laboratório, tendo seu efeito atenuado. Sua função é bloquear a liberação de um neurotransmissor, a acetilcolina, que age nas junções neuromusculares. O Botox® atua no nervo que repassa ao cérebro a ordem para que o músculo não se contraia, diminuindo, assim, a rigidez dos músculos e aumentando a flexibilidade deles. Para o tratamento estético, é utilizada uma dosagem de 20 a 100 vezes menor do que a indicada para uso terapêutico.

Tratamento terapêutico

O Botox® foi aprovado pelo Ministério da Saúde e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária em 1992, como opção terapêutica pouco invasiva (não há incisão).

Com o princípio de agir sobre a musculatura evitando contrações hiperativas indesejadas, a toxina botulínica é usada como terapia em várias doenças, como:

  • Mal de Parkinson: cientistas estão testando em pacientes a possibilidade de usar o Botox® na terapia para diminuir os sintomas do mal de Parkinson, controlando espasmos e tremores e aliviando a dor.
  • Hiperidrose: patologia cujo sintoma principal é o suor excessivo. Para muitos pacientes, a única solução é a cirurgia de simpatectomia, que consiste na remoção do nervo simpático principal. A aplicação do Botox® reduziria a ação excessiva desse nervo.
  • Distonias: são espasmos (contrações) musculares involuntários. Os distônicos apresentam sintomas como dor muscular intensa. Se a distonia for facial, há queixa de dificuldade visual e até de cegueira. Em oftalmologia, há casos da utilização de Botox® em estrabismo.
  • Bexiga hiperativa: consiste em uma alteração funcional da bexiga que passa a apresentar contrações involuntárias. Sintomas como dificuldade de reter a urina e dores constantes são resolvidos com sessões de aplicação de Botox®.

Com esses dados, constatamos que já houve grandes descobertas no que se refere ao uso da toxina botulínica. Porém, ainda há muito a se descobrir. Graças aos avanços tecnológicos, a relação ciência-tecnologia-saúde oferecerá a cada dia novas perspectivas em busca de mais qualidade de vida.

 Obs.: Em todos os casos citados, a Anvisa solicita a autorização por escrito do uso da toxina botulínica. Nesse documento, denominado Termo de consentimento informado, o paciente confirma estar ciente dos prováveis riscos da utilização do produto.

Por esse motivo, continua o alerta: procure sempre  o acompanhamento de seu médico.