Eu muito sei e muito julgo

Jacir J. Venturi

Sabemos que os adolescentes estão em plena formação no que tange aos valores éticos. No entanto, surpreende o julgamento que fazem ao debater temas em que os relacionamentos afetivos lhes são apresentados.

Levei o texto abaixo a 316 alunos da 5.ª série ao Ensino Médio (11 a 17 anos) e pedi que pausadamente o lessem e relessem, pois ao final haveria uma pergunta a ser respondida. O texto, embora singelo, lúdico e maniqueísta, gerou interesse e muitos embates após a sua aplicação.

Aqui está ele:

Paulo e Ana eram recém-casados e viviam felizes. No entanto, passados dois anos, Paulo volta aos amigos — bares, farras — e começa a chegar tarde em casa.

Ana chora, implora e nada. Sentindo-se abandonada, Ana procura Cláudio, do outro lado da ponte, e tornam-se amantes.

Num final de tarde, depois de encontrar-se com Cláudio e voltando para casa, é atacada por um bandido na ponte.

Consegue fugir, corre para a casa do amante e pede proteção.

— O problema é seu! — responde secamente ele.
Desamparada, Ana junta forças e procura um amigo, vizinho de Cláudio.

O amigo, interesseiro, se faz valente:

— Ana, vou com você enfrentar esse malvado!
Qual nada. Ao defrontar com o facínora, acovarda-se e ambos fogem.

A noite caíra. Aterrorizada, Ana teme as reações de Paulo por não encontrá-la em casa. Sem alternativas, ela procura o barqueiro para atravessar o rio de canoa. O homem é rude:

— Só por R$100,00. Grana na minha mão!
Sem dinheiro, Ana implora, suplica e o barqueiro permanece intransigente.

— Que fazer? — pensa Ana. Só me resta enfrentar o bandido!

E assim o faz e enfim é morta pelo bandido.
São 6 personagens: Paulo, Ana, Cláudio, o bandido, o amigo e o barqueiro.

Quem cometeu o maior erro?

Prezado leitor: Estamos diante de um crime e num tribunal de júri, o único condenado seria o bandido. A preservação da vida prepondera sobre comportamentos moralmente inaceitáveis como a ganância do barqueiro, a infidelidade de Ana, o desrespeito e a indiferença de Paulo e Cláudio.

No entanto, os resultados da pesquisa com os 316 estudantes são surpreendentes: em ordem, o maior erro teria sido cometido por Ana (55%), Paulo (27%), Cláudio (8%), bandido (7%), barqueiro (3%), amigo (0%).

Também fiquei pasmo, pois o senso moral e de justiça não se altera quando se cotejam os índices da 5.ª série com os do 3.º ano do Ensino Médio. Além disso, é absurdamente prevalecente as meninas colocarem a culpa em Paulo e os meninos em Ana.

Nós, adultos — bem como a legislação brasileira —, fomos por demais concessivos ao permitir muitos direitos e poucas obrigações às nossas crianças e adolescentes. E nestes se estabeleceu um princípio profundamente arraigado: “não é justo” — ouvimos com frequência. Mas o “não é justo” deles refere-se, na maioria das vezes, aos seus pseudodireitos. Daí ser raro usarem o mesmo critério para julgar os outros e a si próprios.

Já vivemos o bastante para aceitar com resignação e equilíbrio — e essa é a suprema sabedoria — que a vida nem sempre é justa. Nós, adultos, também somos falíveis em nossos julgamentos especialmente em nossa postura perante os adolescentes do “muito sei e muito julgo”, quando o correto é “muito ouço e muito dialogo”.

Jacir J. Venturi, professor e autor dos livros: Geometria Analítica (9.ª ed.); Cônicas e Quádricas (5.ª ed.); Da Sabedoria Clássica à Popular.

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