Televisão e patriotadas ou como o Galvão poderia ser mucho mas bueno…
Começando mais uma manhã de domingo com a Fórmula 1, em poucas voltas estou exasperado com o narrador da TV. O patriotismo exacerbado, que ele consegue exercer até na mais globalizada das modalidades, se manifesta de diversas maneiras, nas críticas aos pilotos de outros países, no excesso de ênfase ao menino da Ferrari, enfim, fica palpável, ao fundo, sempre aquele clima de ninguém pode, ou deveria poder, com os brasileiros…
Essa irritação me levou a finalmente colocar no papel (?) algumas reflexões que me ocorreram ao longo das Olimpíadas de Pequim, em 2008, buscando generalizá-las. Vamos a elas.
A Olimpíada é um momento especial de abrir-se para outros esportes, outras culturas, outros ídolos. Seu potencial de exploração pedagógica é imenso. O mesmo pode ser dito, em maior ou menor escala, de qualquer grande competição ou evento esportivo.
Mas não é isso que acontece. A forma como o tema é tratado pela nossa mídia — e, claro, pela mídia de cada outra pátria, com ou sem chuteiras — busca o efeito contrário, ao destacar os raros feitos dos heróis locais. Isso é um grande erro, um grande desperdício.
O exemplo do atleta que carregou a bandeira da delegação dos Estados Unidos, na cerimônia de abertura das Olimpíadas de 2008, ajuda a desenvolver o argumento: Lopez Lomong, com 23 anos e classificado para representar os EUA na prova de 1.500 metros, nasceu no Sudão e foi adotado aos 16 anos por um casal norte-americano, tendo se tornado cidadão desse país em junho de 2007. Em uma reportagem feita na época das Olimpíadas, ele fala sobre a guerra civil no Sudão, sobre a morte de toda a sua família, sobre os dez anos vivendo em campos de refugiados, sobre como, um dia, ele viu na TV o norte-americano Michael Johnson ganhando os 400 metros nas Olimpíadas de Sydney, em 2000, e disse a si mesmo: Eu quero correr tão bem quanto esse cara…
É sensato acreditar que a história de Lomong, amplamente divulgada nas televisões de muitos países, tenha sido um exemplo inspirador para mais de um jovem em situação difícil.
Outro exemplo que gostaria de apresentar não fala de esporte, mas de ópera: trata-se de uma amiga, cearense do Crato, de origens muito humildes que, aos 22 anos, ouviu pela primeira vez na vida um trecho de ópera, em uma propaganda na TV. Isso alterou toda a sua vida e atualmente, após mais de dez anos de muita luta e estudo, ela está na Itália — acaba de sobreviver ao terremoto que derrubou o prédio em que vivia na cidade de l’Aquila — e quem entende do ramo diz que possui um talento enorme, que pode torná-la uma das grandes sopranos coloraturas do planeta.
O que me impressiona nesses exemplos é como apenas uma experiência, ver ou ouvir algo na TV, toca uma corda tão funda em certas pessoas que é capaz de provocar uma mudança de rumo e um engajamento para a vida inteira, criando imensas zonas proximais do desenvolvimento, como diria Vygotsky. Parece-me que qualquer discussão sobre psicologia da aprendizagem que não leve em conta casos como esses está fundamentalmente incompleta.
Prosseguindo, e tirando algumas deduções pedagógicas: para a escola, um evento como a Olimpíada deve ser um sensacional tema gerador, que parte não apenas do país em que se realizam os jogos, mas busca colocar o foco em esportes e atletas — brasileiros ou não — os mais diversos. Quanto mais modalidades, quanto mais exemplos, quanto mais atletas interessantes nossos alunos e alunas virem, maiores as possibilidades de encontrar exemplos que, mesmo sem provocar mudanças tão radicais como as discutidas acima, podem ter uma influência positiva em sua formação, despertar a curiosidade por novos esportes, pelas trajetórias de indivíduos de outros lugares, pela sua cultura…
É esse potencial que sugere à escola uma abordagem que questiona o patriotismo sensacionalista dos meios de comunicação, busca falar e discutir sobre personagens exemplares de qualquer país.
Um grande evento esportivo pode ser um recurso excelente para a escola que busca abrir novos horizontes e oferecer um sem-fim de experiências impressionantes, que não fecha as portas para caminhos inesperados de aprendizagem e de desenvolvimento pessoal, mesmo que não estejam previstos em seus currículos.
Isso para falarmos das escolas. E a mídia? A mídia poderia ser menos baixa, em vez de apostar nas formas mais primárias de nacionalismo. E isso é verdade em qualquer país.
Como ela poderia fazer isso? Na verdade, ela já o faz, e o exemplo da própria Formula 1 já aponta caminhos: mesmo com todo o patriotismo do locutor, aos poucos conhecemos cada vez mais equipes e pilotos de outros lugares, acordamos em horários bizarros para assistir a corridas que ocorrem em diferentes cantos do planeta, ouvimos histórias e hinos dos mais diversos países. Nas Olimpíadas, chegamos ao extremo oposto, e nossos canais de televisão aberta se limitam a mostrar competições com atletas nossos e a promover uma verdadeira histeria a cada medalha. Diante do escarcéu, da ignorância, do apelo a músicas e slogans patriotas, chega a ser uma sorte termos tão poucos medalhistas…
Enfim, o que importa destacar é que, com uma cobertura mais equilibrada e informada, até mesmo ao transmitir grandes eventos esportivos nossos canais de televisão poderiam ajudar a escola em duas tarefas importantes: construir a ideia de que a valorização do outro apenas aprofunda a percepção do que é ser brasileiro, trabalhando ao mesmo tempo o mais legítimo dos objetivos educativos para o século XXI, que é a formação para a cidadania planetária. Imagine…
Uma Olimpíada — e os esportes, de forma geral — podia ser mais isso, e menos essa gritaria trêmula e esses estúpidos Mostra pra eles, Brasil, de Galvão e seus genéricos.
Por essas e outras é que eu proponho, em forma de brincadeira, ao finalmente me aproximar da linha de chegada deste artigo, a instituição de um programa que poderia ser batizado de Cabo Zero, com o objetivo de colocar uma TV a cabo e um controle remoto na mão de cada família brasileira. Parece piada, mas, pensando bem, e sem alongar ainda mais a discussão, seria potencialmente uma revolução, que nos ajudaria a despertar vocações e talvez, até mesmo, a ganhar mais medalhas em um futuro não muito distante…

Olá Luca,
Primeiro quero dizer que é um prazer ter você como professor, mesmo que fisicamente separado, no Curso de Formação Continuada: Educação e Tecnologia do Portal Educacional.
Realmente a mída televisiva acaba não auxiliando nessa tão sonhada cidadania planetária, principalmente as redes que visam retorno financeiros baseando sua programação no que a massa quer ver e não no que seria ideal para a formação de uma nação mais desenvolvida intelectualmente.
Porém isso é fruto de nosso sistema capitalista e ainda sim em nosso país podemos nos orgulhar de termos canais com boa grade de programação aberta, sem custo para a população.
Sua crítica é totalmente pertinente, mas também existem pontos que temos na mídia nacional que são diferenciais comparados com outras nações até mais desenvolvida que nosso BRASIL.
Abç.
É um privilégio poder trocar idéias com você, Professor Luca. Na verdade, fico até bastante constrangida. Mas, a internet nos dá poderes e, de repente, estou eu aqui, com a maior naturalidade, discutindo com você. . . quem diria!
Pois bem, apesar de concordar que a televisão poderia ajudar muito mais, quero lembrar que há bem pouco tempo, não nos era possível ser patriotas. . . lembram-se que uma calça jeans de um famoso costureiro da época, teve sua venda proibida porque tinha uma etiqueta com a bandeira do Brasil? Hoje vejo, com tristeza, meus alunos dizendo que “verde com amarelo é brega”, que bacana é ser “Fernandinho Beiramar, que viaja de jato pra lá e pra cá e eu tenho que andar à pé”! Então, quando o Galvão dá aqueles gritos, fico esperando que eles “acordem” os brasileiros que o estão ouvindo e, quem sabe, tentem ser um pouco melhores por si mesmos, buscando assim, um Brasil também melhor.