A escola de Educação Infantil ideal

Não poucas vezes, somos procurados por pais solicitando recomendações sobre uma escola de Educação Infantil “ideal” para seus filhos. Respondemos que perguntas dessa natureza não abrigam respostas extremamente específicas e que a melhor escola para esta ou aquela criança depende de inúmeros fatores genéricos e específicos, entre os quais seria necessário incluir a localização geográfica da escola em relação ao lar — uma vez que criança nenhuma merece o suplício de imensos deslocamentos —, os anseios da família quanto ao tipo de educação que gostariam de proporcionar à criança — leiga ou religiosa, privilegiando a amplidão de competências e linguagens ou o apego cognitivo, pública ou particular e ainda outras, muitas outras referências —, os recursos materiais da escola e sua eficiente utilização e, sobretudo, o esmero com que são preparados os seus professores e outros funcionários.

Mas é mais que evidente que essa resposta não satisfaz, e satisfaz menos ainda a sugestão para que visitem diversas escolas da redondeza, conversem e vejam a ação docente em prática, troquem idéias com amigos que tenham filhos matriculados aqui e ali e decidam com base nos dados dessa pesquisa. O que, em verdade, essas solicitações pedem é a existência de uma espécie de termômetro ou algo como uma balança onde os pais poderiam colocar, de um lado, a criança e os anseios familiares e descobrir, no outro, o nome e o endereço da escola. Pensando na inviabilidade dessa idéia, mas não deixando de sentir as angústias dos pais, este pequeno capítulo pretende sugerir tímidas linhas que possam ajudá-los nessa busca e descoberta.

Considerando, pois, esse propósito, parece que a primeira linha de investigação é a baseada na fuga. Assim, sugerimos que se fuja de escolas que ainda conservem em seus ideais pedagógicos os quatro pavorosos instrumentos medievais de tortura infantil, infelizmente ainda resistentes e muito bem disfarçados: o verbalismo, o castigo, o uso de uma aprendizagem inspirada em reflexos condicionados e a paleolítica concepção de que a criança é um adulto pequeno.

O verbalismo se inspira na concepção de que o aluno aprende ouvindo seu professor e que sua mente é um copinho vazio que necessita de informações para aferir aprendizagens. Essa praga resiste até mesmo porque é fascinante e muitos pais se encantam ao saber que a cada dia seus filhos trazem para casa um número maior de respostas definitivas, como um dicionário que, página a página, completa-se. Essa maneira de pensar educação não leva ninguém a nenhum lugar e, quando muito, capacita a criança para apresentar respostas decoradas, válidas para festinhas familiares ou brincadeiras tipo “show do milhão”. O castigo representado pelo sucesso de alguns que a outros são comparados e expresso por notas altas e notas baixas, lições suplementares aos que não realizaram determinadas tarefas ou estrelinhas premiadas a outros que conseguiram sucesso competitivo simboliza estratégia circense, boa para adestramento de ursos, mas terrível para a diversidade e grandeza da essência humana e auto-estima que dignifica toda criança. Se o verbalismo pode ser comparado a uma gripe, esse sistema arcaico de avaliação caracteriza verdadeiro câncer educacional. O reflexo condicionado se manifesta através de estratégias de ensino que adestram e mostram que afinal de contas “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”.

 Apoiadas nessa visão, que o tempo mostrou grotesca, muitas escolas ainda utilizam sistemas de ensino que fazem do pensamento um músculo, cobrando-lhe eficiência pelos caminhos do treino. Se for verdade que a gota fura a pedra, fura por milênios de ação — estratégia patética em relação ao que hoje se sabe sobre como a mente humana aprende e cria significações. Coroando esses bárbaros instrumentos de educação infantil, existe ainda a “teoria do homenzinho”, admiravelmente desmontada por Piaget e seguidores e que pregava que toda criança é homúnculo sem individualidade, anseios e vontades cuja única razão de existir é esperar para crescer. Pensar e agir dessa forma é mais ou menos como pensar no filho como boi, que para outra coisa não veio ao mundo senão para ser bife suculento.

Como é possível aos pais perceberem a existência desses instrumentos? Simplesmente entrevistando professores, conversando com crianças matriculadas nessas escolas, pedindo-lhes os materiais que produzem e, com sutileza, descobrindo as artimanhas que visam a esconder essa vergonha educativa.

Mas a circunstância insólita de a escola não possuir mais em suas metas e propósitos os instrumentos perversos do verbalismo, reflexo condicionado, castigos e teoria do homúnculo não significa que os tenha substituído bem. Ao remover os móveis carcomidos pelo cupim de uma casa, e nada em seu lugar deixar, representa apenas meia solução. Surge, pois, o outro lado do termômetro e a indagação de como deve ser a escola para os filhos que amamos. A resposta, evidentemente, é bem mais vasta que a singeleza dessas linhas, mas algumas idéias podem ser alinhadas. Assim sendo, procure: uma escola onde as professoras — prestando atenção nas dúvidas, perguntas e comentários dos alunos — descubram anseios de vontade de aprender que vão se transformar em situações de aprendizagem e projetos que devem durar enquanto se mantém acesa a curiosidade, o desafio, a vontade da descoberta e o espírito de busca. Observe se essas situações de aprendizagem se organizam em sua expressão através de linguagens múltiplas e espontâneas, em que os desenhos, as colagens, os movimentos, os sons ou as construções individuais e coletivas se manifestam.

Observe se existem atividades que envolvam experiências diretas e concretas que transitem por ações lingüísticas e lógico-matemáticas, espaço-visuais e sonoras, corporais e naturalistas. Nessas atividades, deve-se contar bem menos o que a professora explica e muito mais a maneira como a criança pensa, organiza mentalmente e busca coerência com o trabalho que realizou.

Procure saber se nessa escola existem espaços diferenciados para que, conduzidos pela própria curiosidade ou pelos desafios de projetos construídos, os alunos sejam levados a vivenciar a arte de dizer e de descobrir palavras, a sutileza do ouvir e compreender e a diferenciação entre a condição biológica do “enxergar” e a competência e sensibilidade mental do “ver” e ainda espaços para criar, descobrir e fazer arte, ouvir e inventar histórias, pesquisar e construir artefatos mecânicos, dramatizar e assistir a dramatizações e, quando possível, assistir ao desafio da vida no parto de um animal.

É essencial que uma escola acredite no que a ciência não ousa duvidar: a educação infantil é crucial na formação das pessoas, e, em seu nome, é imprescindível que ensine a compartilhar e fazer amigos, a descobrir que a verdadeira ciência ensina verdades que quem não lê jamais escreve, e que liberdade e individualidade constituem a essência do crescer.

Enfim, que seja uma escola que, com base na ação intermediadora de professores apaixonados, os alunos sintam gula e vontade de resolver problemas, organizar seu tempo e se auto-avaliar.

Como foi comentado acima, essas mal-traçadas linhas não pretendem impor um parâmetro definitivo e, menos ainda, instituir modelo da “boa escola”. Antes, representam o alinhavo de algumas idéias que visam a ajudar a procurar, mas sabem que pouco propuseram no muito que existe a investigar.

Parece ser desnecessário enfatizar que entre essas sugestões nada se disse sobre vitrais coloridos, piscinas aquecidas, discursos epistemológicos ou outras bobagens que tentam fazer de joios ou espeluncas suntuosas trigos enganadores ou escolas que se afirmam essenciais.

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Biografia

Celso Antunes

Celso Antunes

Psicopedagogo, professor é bacharel e licenciado em Geografia e mestre em Ciências Humanas pela Universidade de São Paulo, especialista em Inteligência e Cognição.
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